O nível de estresse nas crianças vem aumentando à medida que seguem uma rotina quase espartana, saindo de casa às 7 da manhã e retornando às 7 da noite, depois da escola e de diversos outros cursos complementares. A jornada de quase 12 horas por dia, igual a de um adulto, não permite às crianças o tempo para o ócio, o que é de extrema importância para a formação e desenvolvimento físico e cerebral. A criança precisa brincar por brincar.

A taxa de obesidade entre crianças de menos de cinco anos de idade sofreu uma expansão sem precedentes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou que entre 1990 e 2014, pelo menos 41 milhões de crianças nessa faixa de idade estão acima do peso. No caso do diabetes, o Brasil é o quarto país do mundo com mais diabéticos, com 13 milhões de portadores, dos quais 1 milhão são crianças e quase 1/3 dos novos casos são de crianças com até quatro anos. Aumentou também o número de crianças e adolescentes com hipertensão arterial. A estimativa é de que 5% da população brasileira com até 18 anos tenham hipertensão, ou seja  3,5 milhões de crianças e adolescentes.

As gerações passadas brincavam na rua, e com os objetos mais simples como latinhas, peão, bicicleta, brincavam de balanço, brincavam com a terra.

As crianças de hoje não pisam descalças na terra. É um alerta de que em algum lugar nós estamos falhando. Criamos filhos de apartamento, sem conhecermos, ao menos, o vizinho, que quando se aproxima, a gente evita na tentativa de nos mantermos apenas no núcleo familiar.

Babás eletrônicas das famílias de cidades grandes

Crianças das grandes cidades sabem apenas o que é brincar nos shoppings, e são excessivamente, estimuladas por vídeo-games, tablets e celulares – as “babás eletrônicas”. É mais fácil oferecer um celular do que acalmar e ensinar essa criança a prestar atenção numa consulta, a poder respeitar e conviver. Nota-se o mesmo comportamento nos restaurantes, dando-se a pílula do imediatismo, uma espécie de ‘cala-boca’ para os pais terem tempo para almoçar em paz. Isso é muito comum.

São crianças super estimuladas e até mesmo, mais inteligentes, mas não são crianças, e por isso acabam adoecendo mais cedo.

Resgate do núcleo familiarResgate do núcleo familiar

Quando as crianças chegam ao consultório já adoecidas, o foco é resgatar o núcleo familiar que foi destruído. Muitas vezes, as mães não comparecem à consulta e mandam a vizinha ou a avó, a tia, a prima, e a criança sofre por falta do vínculo, por falta da mãe. A estrutura familiar em muitos casos não existe. As separações entre os casais estão cada vez mais presentes. Muitas vezes são filhos únicos de pais diferentes e que não se dão bem com os irmãos. São crianças desestruturadas do ponto de vista emocional. Então, a primeira coisa é permitir que a mãe se encontre, de fato, com seu filho, e o filho com sua mãe, porque esse é o elo principal.

Ao melhorar a relação familiar, melhora tudo. O rendimento escolar, o sono, o apetite. É outra criança. Nós somos psicossomáticos. O que está dentro da nossa psiquê, somatizamos no corpo. Todas as doenças tem um motivo emocional. Faz parte de cada uma das nossas abordagens em consultório, resgatar as pequenas partes. O universo da criança é pequeno. Família e escola. Para o adulto, não. Tem o lado afetivo da sua relação homem/ mulher, o lado profissional, familiar, e vai agregando outras coisas. Para a criança que depende desse universo família/escola, quando melhora o vínculo familiar, melhora tudo.

Olhar a criança no contexto pré-natal

Ainda no contexto familiar, é importante investigar se a criança foi desejada ou não, se a mãe desejou ter um menino ou uma menina e, se esse desejo foi refutado ou realizado. Outros aspectos do histórico da mãe também são levados em consideração como aborto ou óbito de filhos anteriores. São inúmeras variáveis, inclusive sociais, como a de averiguar quem, de fato, cuida daquela criança e com a ajuda de quem, já que as mães estão sobrecarregadas.

Influência do bullying e assédio na vida da criança

Outros aspectos críticos são o assédio e o bullying que as crianças sofrem na escola, ou nas comunidades onde vivem. É a visão de todo o universo da criança que faz a diferença no diagnóstico e tratamento. Muitas vezes, as crianças, além de desrespeitadas, não tem ao menos cama para dormir, ou ainda, o que dela é de todo mundo, justamente no período em que está se formando o ‘eu’ dessa criança.

É muito difícil crescer massacrado e sem direito a nada. O massacre aos direitos da criança não acontecem somente nas famílias de baixo poder aquisitivo. Crianças de famílias abastadas também sofrem bullying, também sentem falta da mãe que nunca está presente, ou se ressentem do divórcio dos pais.

Tempo e elogio para o seu filho

Ninguém trabalha de domingo a domingo, e mesmo quem o faz, precisa encontrar um tempo para estar com seu filho. Um tempo de qualidade que possibilite escutar e brincar. Outra coisa muito importante que eu sempre digo às mães é para que elogiem seus filhos. Depois de uma determinada faixa etária, a gente só cobra, o que não deixa de ser uma forma de bullying. A exacerbação das cobranças vem de pais que se sentem esgotados, mas se não mudarmos essa postura, estaremos transferindo os problemas para as próximas gerações.

Um dos exercícios que pratico, constantemente, no consultório, é pedir às mães que façam um elogio aos seus filhos, ali mesmo, enquanto estão comigo no consultório. Nessa hora, todo mundo engasga. E o curioso é que quando a gente pede o exercício contrário, para o filho ou a filha elogiarem a mãe, a resposta é imediata. “A minha mãe é a melhor mãe do mundo”, “A minha mãe faz a melhor macarronada do mundo”. E as mães se emocionam.

Sempre instigo os adultos a elogiarem a si mesmos e os filhos, o parceiro, o funcionário. O elogio é importantíssimo.

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Dra. Márcia Yamamura
Sou médica pediatra, com especialização em infectologia pediátrica e professora da Escola Paulista de Medicina, com diversas especializações em acupuntura. Minha missão é difundir o conhecimento da Medicina Chinesa e os benefícios da acupuntura para toda a população.

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